O Hotel Que Nos Recusou no Meio do Deserto

Viajávamos com uma família amiga por Dubai e Abu Dhabi, e entre os dois destinos havia uma parada planejada com cuidado: uma noite em Qasr Al Sarab, num resort no meio do deserto, para viver a experiência de dormir cercado de dunas. Reserva feita, roteiro fechado, expectativa alta.
Saímos cedo de Dubai. Foram mais de 300 quilômetros — primeiro por rodovias impecáveis, depois por trechos de estrada que iam se dissolvendo em areia. No meio do nada, uma cancela. Um segurança perguntou se tínhamos reserva. Mostramos os vouchers. Ele fez uma ligação — longa o suficiente para nos deixar em dúvida — e, por fim, liberou a passagem.
Mais alguns quilômetros de dunas e chegamos à recepção. Um comitê nos aguardava, sorridente, quase cerimonial. Um funcionário anunciou que o gerente viria nos atender pessoalmente. Enquanto caminhávamos para dentro, o motorista começou a descarregar as malas — e alguém o interrompeu: não seria necessário. Ele insistiu que ficaríamos hospedados ali. A resposta, educada mas firme, foi a mesma: não seria necessário.

Já na recepção, veio a notícia: o gerente lamentava informar que nossa reserva havia sido cancelada. Perguntamos por quê. Ele disse que não nos devia explicações — que todas as agências haviam sido avisadas do cancelamento. Eu insisti: trabalho com viagens, sou agência, e não recebi comunicado nenhum. Liguei na hora para o Brasil, para o fornecedor com quem havíamos fechado a reserva — nenhum aviso havia chegado até eles também.
Diante do impasse, focamos no que dava para resolver. A primeira proposta — hospedagem em Abu Dhabi — não ajudava em nada: já era nosso próximo destino, e já tínhamos reserva por lá. Some-se a isso: já era meio-dia, precisávamos almoçar em algum lugar, e o motorista só tinha sido contratado para nos levar até ali.
No fim, o hotel resolveu o problema de um jeito que nenhum de nós esperava: duas diárias com tudo incluído no Ritz-Carlton Al Wadi, também no deserto; reembolso integral da estadia cancelada; almoço no próprio Qasr Al Sarab antes de sairmos; e o motorista, recompensado em dobro pelo trecho extra até o novo destino.
O motivo do cancelamento só veio à tona na sobremesa. Minha mulher, que não tem papas na língua, puxou conversa com um dos cozinheiros e perguntou se ele trabalhava ali fazia tempo. Não, respondeu ele — tinha vindo só para aquele evento. Um Sheik estava dando uma recepção para convidados especiais, e o hotel inteiro havia sido reservado só para isso.

Não tínhamos como prever aquilo, e ninguém teria como evitar. Mas é exatamente esse tipo de imprevisto — o que não está em nenhum roteiro, em nenhum voucher — que separa uma viagem que dá certo de uma que só dá errado. A diferença nem sempre está em nunca esbarrar num problema. Está em saber o que fazer quando ele aparece.
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